Doze dos 20 países à beira do colapso estão em África. Crise terá impacto no total de "estados falhados" nos próximos anos.
"Estado falhado." Esta é uma etiqueta que um líder político que se preze quer evitar ver colada ao seu país. Em 2008, por exemplo, o então ministro da informação paquistanês Ali Durrani reagiu desta forma à ascensão do seu país ao top dos Estados falhados: "É a brincadeira do ano."
Pois o "Índex de Estados Falhados 2010" foi agora publicado pela revista "Foreign Policy" (FP) e o Paquistão volta a estar bem colocado - desta vez ainda não houve reacções. Pelo terceiro ano seguido, a Somália lidera a tabela dos estados que, por várias razões, perderam a capacidade de produzir segurança, promover a justiça ou a prosperidade. Paulo Gorjão, director do Instituto de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS), apura o conceito: "Há muitas definições de estado falhado. Poderemos ir pela minimalista, que acentua a perda do monopólio do uso da força por parte do Estado e a sua incapacidade de controlar todo o território, ou pela maximalista, que acrescenta a incapacidade de prestar alguns serviços." A maioria destes países são hoje paraísos para grupos terroristas e redes de criminalidade. "O fim da Guerra Fria abriu a porta à desagregação destes estados que são hoje grande fonte de preocupação para a comunidade internacional", diz Gorjão, que olha para a crise internacional como um catalisador do potencial de desagregação de países que já estão no limite.
A lista da FP surge depois de avaliados mais de 30 mil indicadores agrupados em 12 categorias - de "Pressões Demográficas" a "Refugiados", passando pela "Deslegitimação do Estado", pelos "Direitos Humanos" ou pelo "Declínio Económico". A partir da análise destes dados nasce o índex de 60 Estados em risco de desmoronamento. No primeiro terço da tabela há um país do continente americano, 12 africanos e sete entre a Península Arábica, Ásia e Oceania. "Cada um destes países tem uma dinâmica diferente mas podemos dizer que a má governação, culturas multiétnicas e uma sociedade civil incipiente são um traço comum", salienta o analista. Um deles fala português: Timor-Leste. "Porque razão Timor é considerado um Estado falhado e o Quirguizistão não? Para mim isso tem que ver com interesses políticos dos países da vizinhança, como a Austrália", desafia Gorjão.
A Guiné-Bissau, ex-colónia lusa e narco--estado, ocupa o 22.o lugar, perto do grupo dos mais instáveis. "A pergunta que temos da fazer neste caso é: será culpa do mau legado do descolonizador? Não creio, apesar dos factores estruturais serem relevantes, porque Cabo Verde tem sido uma história de sucesso e a Guiné uma história de desastre. Isto significa que há factores de ordem interna que são responsáveis." .
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