Terça-feira, 17 de Agosto de 2010

A grande jogada do general George Marshall

No alvorecer da Guerra Fria, o secretário de Estado americano expôs seu plano para conter o avanço soviético na Europa: ressuscitar a indústria do Velho Continente
Rémi Kauffer.

Menina austríaca carrega balões com os dizeres "Plano Marshall, 1951 - um dia bens e produtos vão circular livremente numa Europa próspera e unida"

No dia 5 de junho de 1947, o general George Catlett Marshall recebeu o título de doutor honoris causa pela prestigiosa Universidade Harvard. Na ocasião, Marshall, então secretário de Estado do presidente americano Harry Truman, pronunciou um discurso que entraria para a história: anunciou ao mundo aquele que ficou conhecido como o Plano Marshall.

As pessoas bem informadas já sabiam que os Estados Unidos estavam dispostos a oferecer uma ajuda econômica a pelo menos uma parte da Europa – desde maio de 1947, especialistas do Departamento de Estado americano estavam sendo questionados sobre o assunto no escopo do Programa de Recuperação Europeia. Evidentemente, também se sabia que um dos principais motivos da boa vontade americana era o receio de um novo avanço soviético sobre o oeste do Velho Continente.

Isso porque desde maio de 1945 e depois da capitulação da Alemanha, Stalin estava movendo seus peões. Enquanto o Exército Vermelho continuava mobilizado, a maioria dos 7 milhões de soldados americanos comandados por Marshall, na época chefe do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos, já tinha voltado para casa. É bem verdade que o país possuía a bomba atômica, mas ninguém ousaria afirmar que ele teria condições de enfrentar uma ofensiva soviética com os efetivos que mantinha na Europa ocidental. Um diplomata americano que serviu em Moscou durante a Segunda Guerra Mundial, George Kennan, foi o primeiro a dar o alarme.

Cartaz de propaganda do Programa de Recuperação Europeia convoca os países a hastear suas bandeiras no mastro do continente europeu Em fevereiro de 1946, Kennan já havia desvendado a estratégia de Stálin. Segundo ele, a URSS, "impermeável à lógica da razão e altamente sensível à lógica da força", pretendia levar a cabo um processo duplo de enfraquecimento e satelitização dos países europeus.

Em um telegrama secreto de 8 mil palavras endereçado a Washington, ele insistiu: “O comunismo é como um parasita maléfico que prospera somente nos tecidos doentes”. Mais que um perigo estritamente militar, o que se deveria temer era a desagregação em cadeia das estruturas econômicas e sociais dos países europeus. Por isso, a linha de conduta proposta pelo diplomata foi a de curar urgentemente os “tecidos” doentes, ou seja, as economias dos países arruinados pela guerra.

O método foi aprovado pelo subsecretário de Estado Dean Acheson. Em 18 de abril de 1947, ele resumiu a filosofia do futuro plano Marshall: “Será preciso recorrer cada vez mais ao nosso segundo instrumento de política estrangeira, o poder econômico, de maneira a conter o expansionismo e a infiltração política da URSS e permitir a implantação da estabilidade política e do bem-estar econômico”. Mais claro, impossível.

Kennan faleceu no dia 17 de março de 2005, com 101 anos. Por sua avaliação perspicaz da ameaça soviética, esse personagem excepcional contribuiu, mais do que qualquer outro, para impulsionar o plano do general Marshall. Este, aliás, não tardaria a chamá-lo para trabalhar a seu lado.

O general George C. Marshall chegou no dia 5 de junho de 1947 à Universidade Harvard, onde anunciou seu plano de recuperação dos países aliados
No dia 29 de abril de 1947, o secretário de Estado delegou ao diplomata a elaboração de um plano de ajuda para a Europa. Um projeto faraônico destinado a desafiar Stálin no ponto em que seu dispositivo econômico era fraco: indústrias civis, serviços e atividades comerciais. Ao promover um rápido aumento do padrão de vida aos países europeus, a estratégia também acabava preenchendo o famoso vazio que os comunistas adorariam ocupar.

Havia, no entanto, problemas espinhosos. A ajuda deveria se estender aos países vencidos pelo Eixo? Sim, disseram o general e seus conselheiros, reunidos pela última vez no dia 28 de maio de 1947, uma semana antes do discurso de Harvard. Em primeiro lugar estava a Itália. Com seu partido comunista no auge do poder, ela sucumbiria aos soviéticos sem resistência. Mas havia também a Alemanha. Estrategista de primeira, Marshall logo se deu conta de que esse país, dividido em duas grandes zonas de ocupação, a ocidental (americana, inglesa e francesa) e a soviética, era a chave da Guerra Fria que se anunciava.

O inimigo mortal de ontem se tornava então um aliado imprescindível. Isso colidia com os planos de Henry Morgenthau Jr., secretário do Tesouro dos Estados Unidos e amigo pessoal do presidente Franklin Roosevelt. Ele tinha imaginado para a Alemanha vencida um pós-guerra radicalmente oposto: desmontagem das fábricas que ainda estivessem de pé apesar dos bombardeios, destruição dos poços de minas e retorno a uma economia pastoral.
O dinheiro enviado pelos EUA fi fundamental para a reconstrução da Alemanha Ocidental
O novo realismo da diplomacia americana tinha, contudo, um grande inconveniente. Era difícil privilegiar a Alemanha diante dos países devastados pelo nazismo. A solução era oferecer uma ajuda global. Como essa oferta se estenderia à União Soviética, ninguém poderia tachar os americanos de mal-intencionados. Além disso, a Alemanha não seria em hipótese alguma a beneficiária número um dessa ajuda. Iriam dar-lhe o suficiente para ajudá-la a se reconstruir, porém menos que para o aliado britânico, ou até para a França, onde a ameaça comunista era grande.

As cabeças mais brilhantes foram mobilizadas para elaborar o Programa de Recuperação Europeia. Quando criticados pelo elevado custo do plano, seus especialistas respondiam com uma pergunta: "Vocês veem outro meio de impedir nossa indústria de mergulhar na depressão pós-guerra?". O plano era uma grande oportunidade. Graças aos mercados que abriria, as fábricas trabalhariam a todo vapor por vários anos, o suficiente para reembolsar amplamente as despesas. Ao passo que, com parceiros arruinados, teriam de dar adeus aos bons negócios.

A proposta foi muito bem recebida nos meios patronais, que sentiam saudades da estreita cooperação entre governo federal e indústrias privadas nos tempos de guerra. Se isso pudesse funcionar bem da mesma maneira em tempos de paz…

Holandeses agradecem a ajuda estrangeira, escrevendo "Thank you, Marshall" no coração alegórico
"Pensem também nas vantagens extras", ressaltaram os mesmos peritos do programa. Com esse gesto generoso, os Estados Unidos ganhariam a simpatia do Velho Continente.

Uma oportunidade para divulgar seus valores culturais, obras de arte e filmes. Afinal de contas, estava na hora de mostrar o caminho aos europeus. Enquanto eles se digladiavam em guerras internas, transformadas rapidamente em mundiais, os americanos estavam construindo os Estados Unidos da América. Os europeus tinham de seguir o bom exemplo e se unificar. Acertaram em cheio com esse argumento. Naquela época, uma Europa unida, de preferência federal, não era vista pelas elites americanas como concorrente, mas como complementar.

Vencido o isolacionismo, Marshall tomou a palavra: “A verdade é que as necessidades da Europa, para os próximos três ou quatro anos, de alimento estrangeiro e outros produtos de primeira necessidade – provenientes principalmente dos Estados Unidos – são maiores que sua capacidade de pagamento. A tal ponto que, se não se beneficiar de uma ajuda substancial, ela mergulhará em uma crise econômica e social muito grave”. De acordo com ele, “o remédio consiste em romper o círculo vicioso e restaurar a confiança dos europeus na economia de seus respectivos países, assim como na da Europa como um todo”. Evidentemente, a condição seria “um acordo entre os países do continente quanto às exigências da situação e quanto à participação de cada um, de maneira a gerar o efeito adequado a qualquer medida tomada pelo governo dos Estados Unidos”.

O general Marshall e o Secretário de Guerra americano Henry Stimson em 1942
O plano estava lançado. Entraria em vigor oficialmente no dia 2 de abril de 1948. O que não seria fácil, já que Stalin, desconfiado por natureza, foi categórico: "Niet". Nem a União Soviética, nem os países do Leste controlados por ela, nem os comunistas da Europa ocidental aceitariam a “servidão” que os Estados Unidos pretendiam lhes impor. Com o #slogan# “o Plano Marshall é a guerra”, foram abertas as hostilidades.

De 17 de junho a 2 de julho de 1947, uma conferência de conciliação tripartite – União Soviética, França e Inglaterra – fracassou em Paris devido à intransigência de Viatcheslav Mikhailovitch Molotov, o chefe da diplomacia russa. Stalin, porém, cometia assim um erro, ao seguir a lógica de relação de forças. A recusa soviética, após longas negociações do lado ocidental, levaria à criação, no dia 16 de abril de 1948, da Organização Europeia de Cooperação Econômica (OCDE), claramente situada dentro da perspectiva de Marshall.

O Leste também se organizava. De 22 a 27 de setembro de 1947, em Szklarska Poreba, na Polônia, uma conferência secreta dos partidos comunistas decidiu pela criação de uma nova internacional “proletária”. Quatro anos após a dissolução do Komintern, o serviço de informação dos partidos comunistas, surgiu o Kominform, seu sucessor. O general em fotografia de 1946
Se em 1943 o Leste pretendia tranquilizar os aliados ocidentais, dessa vez queria assustá-los. Era chegada a hora de baixar definitivamente a Cortina de Ferro. Em fevereiro de 1948, ocorreu o golpe em Praga. Um sucesso para Stalin. E, entre junho de 1948 e maio de 1949, o bloqueio de Berlim. Uma derrota para o ditador, que nunca conseguiria transformar toda a Alemanha em satélite da URSS, como planejava.

Ainda era preciso organizar a ajuda americana. Em primeiro lugar, definiu-se que 80% das quantias seriam atribuídas como doações e 20% como empréstimos. No caso da França, o percentual das doações foi elevado a 86%. Os objetivos foram definidos país a país: estabilidade política e reforma fiscal para a França, redução do desemprego e financiamento de infraestruturas para a Itália, convertibilidade da libra para a Grã-Bretanha etc.

Até então informal, o Programa de Recuperação Europeia passou a ser controlado a partir de maio de 1948 por uma agência americana recém-criada, a Economic Cooperation Administration (ECA, na sigla em inglês para Administração de Cooperação Econômica), com base em Washington. Seus gestores, Paul Hoffman e depois William Foster, prestavam contas apenas para a Casa Branca.
O presidente americano Dwight D. Eisenhower a esposa de George C. Marshall inauguram busto de bronze em homenagem ao general, em 08 de setembro de 1960

Então, passou-se para a ação. Em Paris, o administrador Richard M. Bissell Jr. encarregava-se dos contatos com o francês Robert Marjolin, secretário-geral da OCDE. Além disso, foi instalada uma missão da ECA em cada país parceiro. Ao perceberem que a baixa produtividade da indústria europeia era seu calcanhar de aquiles, Hoffman e Bissell rapidamente laçaram um programa de formação. Ao mesmo tempo, foi criado um departamento para cuidar de questões trabalhistas. Seu objetivo: orientar os sindicalistas do Velho Continente.

Muito à vontade no papel de irmão mais velho que eles mesmos se atribuíram, os americanos davam uma grande importância a essas atividades “pedagógicas”. A Divisão de Produtividade e Assistência Técnica da ECA teve grande participação na criação da Organização Europeia da Produtividade, uma das filiais da OCDE.

O confronto entre sindicalistas pró e anti-Marshall, geralmente próximos dos partidos comunistas, não tardou a levar a uma cisão planetária. Em dezembro de 1949, a Confederação Internacional dos Sindicatos Livres, favorável ao plano, separou-se da Federação Sindical Mundial, ligada ao bloco do Leste e deliberadamente oposta à iniciativa.

Os americanos participariam diretamente das atividades da OCDE, mas não teriam direito a voto. A comunicação entre essa organização e a ECA (rebatizada de Mutual Security Agency em 1951, estendendo suas competências para o campo da ajuda militar) seria assegurada por um organismo ad hoc: o Office of the Special Representative (OSR, na sigla em inglês para Gabinete do Representante Especial).

Sediada na praça da Concórdia, em Paris, o OSR também tinha funções de assistência técnica. A partir de 1952, esse organismo, uma verdadeira chave mestra, seria o elo entre o Programa de Recuperação Europeia e a recente Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (Ceca). Mais discretamente, o OSR ainda repassava fundos da recém-criada CIA, em setembro de 1947, para os sindicatos europeus não comunistas e para os movimentos federalistas.

Atuando em conjunto com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, a agência de informação americana era encarregada de criar condições favoráveis para a execução do Plano Marshall. Dirigido por Franck Wisner, o Office of Policy Coordination (Escritório de Coordenação Política), departamento especializado em guerra psicológica, intelectual e ideológica, supervisionaria esse trabalho, mais próximo da diplomacia secreta que da espionagem pura.(ler "A mão invisível da CIA na União Europeia", História Viva ed. 56)

Entre 2 de abril de 1948 e 31 de dezembro de 1951, data do encerramento do plano, as quantias envolvidas estavam à altura da importância dada por Washington a seu êxito: nesse período, mais de US$ 12 bilhões foram distribuídos entre os 18 países beneficiados. Na Europa ocidental, apenas a Espanha de Franco e a Finlândia, vizinha da União Soviética, ficaram de fora desse esforço sem precedentes.

O plano permitiu não somente conter o avanço comunista, de grande importância para George Kennan, como favoreceu a reconstrução da indústria europeia, assegurando para os empresários americanos um nível de atividade conveniente. Bingo para o general Marshall.
Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

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