Sábado, 5 de Março de 2011

«O mundo árabe está em fogo»

«O mundo árabe está em fogo», noticiou a Al-Jazeera no dia 27 de Janeiro, enquanto pela região fora, os aliados ocidentais «estão a perder rapidamente a sua influência».

Noam Chomsky

A onda de choque foi iniciada pela dramática revolta na Tunísia que expulsou um ditador apoiado pelo ocidente, com repercussões especialmente no Egipto, onde os manifestantes suplantaram a brutal polícia do ditador.

Os observadores compararam os eventos à queda do domínio russo em 1989, mas existem diferenças importantes.

Crucialmente, não existe nenhum Mikhail Gorbachov entre as grandes potências que apoiam os ditadores árabes. Em vez disso, Washington e os seus aliados mantêm o princípio bem estabelecido de que a democracia é aceitável na medida em que é conforme aos objectivos estratégicos e económicos: em território inimigo tudo bem (até um certo ponto), mas não no nosso quintal, for favor, a não ser que seja domesticado apropriadamente.

Uma comparação de 1989 tem alguma validade: a Roménia, onde Washington manteve o seu apoio a Nicolae Ceausescu, o pior dos ditadores da Europa de Leste, até a lealdade se tornar insustentável. Então, Washington saudou o seu derrube enquanto o passado era apagado.

Esse é um padrão corrente: Ferdinand Marcos, Jean-Claude Duvalier, Chun Doo Hwan, Suharto e muitos outros bandidos úteis. Pode estar em curso no caso de Hosni Mubarak, juntamente com os esforços do costume para tentar assegurar um regime sucessor que não se desvie muito do trilho aprovado.

A esperança actual parece ser o general Omar Suleiman, leal a Mubarak, que acaba de ser nomeado vice-presidente do Egipto. Suleiman, durante muito tempo chefe dos serviços de informações, é desprezado pelo público rebelado quase tanto como o próprio ditador.

Uma refrão comum entre os peritos é que o medo do Islão radical requer oposição (relutante) à democracia em termos pragmáticos. Embora não seja desprovida de algum mérito, a formulação é enganadora. A ameaça geral sempre foi a independência. No mundo árabe, os Estados Unidos e os seus aliados apoiaram regularmente islamitas radicais, algumas vezes para prevenir a ameaça do nacionalismo secular.

Um exemplo familiar é a Arábia Saudita, o centro ideológico do Islão radical (e do terrorismo islâmico). Outro exemplo numa longa lista é Zia ul-Haq, o ditador mais brutal do Paquistão e o preferido do presidente Reagan, que levou a cabo um programa de islamização radical (com fundos sauditas).

«O argumento tradicional avançado dentro e fora do mundo árabe é que não há nada de errado, está tudo sob controlo», diz Marwan Muasher, antigo responsável jordano e agora director de investigação do Médio Oriente para o Carnegie Endowment. «Com esta linha de pensamento, as forças entrincheiradas alegam que os opositores e os que estão de fora que reclamam reformas exageram as condições no terreno».

Assim, o público pode ser dispensado. Esta doutrina remonta muito atrás e generaliza-se a todo o mundo, ao território estado-unidense também. Em caso de agitação, mudanças tácticas podem ser necessárias, mas sempre com o propósito de reassumir o controlo.

O vibrante movimento democrático na Tunísia foi dirigido contra «um Estado policial, com pouca liberdade de expressão ou associação, e sérios problemas de direitos humanos», dirigido por um ditador cuja família era odiada pela sua corrupção. Esta era a avaliação do embaixador dos EUA, Robert Godec, num cabo de Julho de 2009 publicado pelo WikiLeaks.

Assim, para alguns observadores, os «documentos [do Wikileaks] deveriam criar um sentimento reconfortante entre o público americano de que os responsáveis não estão a dormir no posto» – de facto, os documentos são tão favoráveis às políticas estado-unidenses que é quase como se Obama os tivesse filtrado ele próprio (ou assim escreve Jacob Heilbrunn no The National Interest).

«A América deveria dar uma medalha a Assange», diz uma manchete no Financial Times. Gideon Rachman, analista chefe de política externa, escreve que «a política externa da América surge como cheia de princípios, inteligente e pragmática – a posição pública assumida pelos EUA em qualquer assunto é geralmente a posição privada também».

Deste ponto de vista, o WikiLeaks mina os “teóricos de conspiração” que questionam os nobres motivos que Washington proclama regularmente.

O cabo de Godec apoia estes juízos – pelo menos se não olharmos mais longe. Se o fizermos, como noticia o analista Stephen Zunes na Foreign Policy in Focus, descobrimos que, com a informação de Godec na mão, Washington forneceu 12 milhões de dólares em ajuda militar à Tunísia. Como é costume, a Tunísia era um de apenas cinco beneficiários estrangeiros: Israel (rotineiramente); as duas ditaduras do Médio Oriente, Egipto e Jordânia; e a Colômbia, que desde há muito tem o pior registo de direitos humanos e a maior ajuda militar estado-unidense do hemisfério.

A prova A de Heilbrunn é o apoio árabe às políticas dos EUA contra o Irão, revelado pelos cabos filtrados. Rachman também agarra neste exemplo, como o fizeram os meios de comunicação em geral, saudando estas revelações encorajadoras. As reacções ilustram o quão profundo é o desprezo pela democracia na cultura instruída.

Não é mencionado o que a população pensa – e que facilmente se descobre. De acordo com sondagens publicadas pelo Brookings Institution em Agosto, alguns árabes concordam com os comentadores de Washington e do ocidente de que o Irão é uma ameaça: 10%. Em contraste, vêem os EUA e Israel como as maiores ameaças (77% e 88%, respectivamente).

A opinião árabe é tão hostil às políticas de Washington que a maioria (57%) pensa que a segurança da região seria aumentada se o Irão possuísse armas nucleares. Ainda assim, «não há nada de errado, está tudo sob controlo» (tal como Marwan Muasher descreve a fantasia prevalecente). Os ditadores apoiam-nos. Os seus súbditos podem ser ignorados – a não ser que quebrem as suas cadeias, e então a política deve ser ajustada.

Outros cabos também parecem apoiar os juízos entusiastas sobre a nobreza de Washington. Em Julho de 2009, Hugo Llorens, o embaixador dos EUA nas Honduras, informou Washington acerca de uma investigação da embaixada sobre as «questões legais e constitucionais em torno da remoção forçada do presidente Manuel ‘Mel’ Zelaya, no dia 28 de Junho».

A embaixada concluiu que «não há dúvida de que o Exército, o Tribunal Supremo e o Congresso Nacional conspiraram, no dia 28 de Junho, no que constituiu um golpe ilegal e inconstitucional contra o ramo executivo». Muito admirável, excepto que o presidente Obama procedeu de forma a quebrar com quase toda a América Latina e com a Europa ao apoiar o regime golpista e desvalorizando as atrocidades subsequentes.

As revelações talvez mais impressionantes do WikiLeaks têm a ver com o Paquistão, revistas pelo analista de política externa Fred Branfman no Truthdig.

Os cabos revelam que a embaixada dos EUA está bem ciente de que a guerra de Washington no Afeganistão e no Paquistão não só intensifica o anti-americanismo desenfreado, mas também «corre o risco de desestabilizar o Estado paquistanês» e ainda aumenta a ameaça do pior pesadelo: que as armas nucleares possam cair nas mãos de terroristas islâmicos.

De novo, as revelações «deveriam criar um sentimento reconfortante […] de que os responsáveis não estão a dormir no posto» (palavras de Heilbrunn) – enquanto Washington marcha firmemente para o desastre.

fonte: http://infoalternativa.org/

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